• Adriana Tanese Nogueira

A SAUDÁVEL INTOLERÂNCIA DO DIA-A-DIA

Palavra até um pouco na moda e, entretanto, tão essencial para o desenvolvimento da civilização. Intolerância parece “feio”. O bonito hoje é “tolerância”: “Atitude de respeito ou indulgência para com o comportamento, ideias ou crenças dos outros, mesmo que em contraste com os seus próprios.” Ser tolerantes parece, assim, algo moderno, politicamente correto, comportamento que cimenta a cordialidade e união social.

De fato, foi assim que se estabeleceu a luta cívica pela tolerância, começada na França, terra que deu origem ao próprio conceito de liberdade de pensamento. Em 1763, o filosofo francês Voltaire publicou o “Tratado sobre a tolerância”, obra escrita após a morte de Jean Calas, que havia sido injustamente acusado e executado a 10 de março de 1762 pela morte do seu filho, que se havia convertido ao catolicismo. Ou seja, o filho se converteu ao catolicismo, o pai foi morto. Diante desse absurdo civilizacional fruto do fanatismo religioso, Voltaire convida à tolerância entre os religiosos.

No longo tempo histórico que se seguiu, vencemos muitas lutas em favor da tolerância: de costumes, de credo, de escolha sexual, de ideias políticas... “Vencemos”? Não exatamente, mas certamente conquistamos a possibilidade de falar disso tudo abertamente. Podemos criticar quem discrimina gênero, raça, religião e etc., e manifestações nas ruas são realizadas, mesmo sob repressão e manipulação. Mas é que o processo civilizacional é lento e doloroso.

Agora, enaltecer a ideia de tolerância somente não basta. Toda tolerância é acompanhada por uma intolerância. No próprio texto de Voltaire, a intolerância implícita é contra o fanatismo religioso que mata um homem porque o filho escolheu uma religião diferente da imposta pelo Estado.

Hoje, vivemos num tempo em que a tolerância, clamada a torto e a direito, e associada ao politicamente correto, nos leva basicamente a aceitar o que deveria ser rejeitado. A ideia de tolerância se tornou uma bandeira conveniente para esconder a conivência, a covardia e a passividade intelectual. É interessante observar como a tolerância traz um sentimento de aceitação que parece amortecer a capacidade crítica por temer usá-la ou não sabe como usá-la.

Ser tolerantes ao outro não significa aceitar qualquer coisa. Pois devemos nos perguntar: até que ponto aceitar? Onde está o limite entre tolerar e ser conivente com o abuso, o atraso, o crime? Como discernir o que é tolerável em nome do “bem comum” e o que é intolerável em nome do “justo e saudável” que é também “bem comum”?

Tolerância parece dizer “paz”, intolerância parece trazer conflito. Mas o conflito é parte essencial do processo de desenvolvimento cognitivo e social. Conflito quer dizer contradição, oposição que não encontra imediata resolução e que, portanto, demanda atenção, dedicação, trabalho. Trabalho civilizacional.

Evoluir requer constante aprimoramento do pensar, discriminação intelectual que separa com sempre mais nitidez o que significa cada coisa, tanto no pensamento universal como naquele diário. Vamos dar um exemplo.

Na vida prática o que significa ser tolerantes com o vizinho que deixa o som ligado até depois das dez da noite? Significa sono mal dormido, significa frustração e tensão (que, inevitavelmente, cresce com o tempo). Significa sensação de não ter “um lar meu” pois sou invadido e abusado. Significa sentir-se à mercê dos outros, sentir-se estrangeiro no próprio país, cidade, bairro, significa sentir-se “chato” e “errado” se reclamar, o que reforça a ideia de que as próprias necessidades não valem nada, portanto “eu não valho nada” uma vez que aquilo do qual preciso é desconsiderado. Significa a ausência de um senso de civilidade e de pertencimento a um país que cuida de seus cidadãos. Logo, sentir-se sozinho numa selva onde é cada um por si, sem nem mesmo as leis naturais que sabiamente governam os animais. Leva consequentemente a não se importar com a “coisa pública”, que é o Estado, a cidade, as ruas, as calçadas, os vizinhos... Essa é a consequência da “pequena tolerância” em nome da “paz”.

Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, intérprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto (www.asmigasdoparto.org), do AELLA - Instituto Internacional de Educação Psicológica e Espiritual (www.institutossc.com) e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

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