• Adriana Tanese Nogueira

AMOR NA ERA DOS CACTUS

Um dia, minha filha, com seus 12 anos de vida, me disse: "Tenho tanto amor no coração, tanto amor para dar e... não tem para quem dar." Quem não conhece esta situação? Não estamos falando aqui do amor romântico entre amantes, mas do amor como sentimento geral. Amor pelas pessoas, pelos animais, pelas coisas, pela vida. Amor como condição do ser, como alegria compartilhável de estar e de viver.


Acredito que nascemos assim, com muito amor, apesar dos outros elementos que carregamos conosco (de vidas passadas ou do inconsciente coletivo). Infelizmente, aquela alegria inicial esbarra em diversos obstáculos, um deles sendo, muitas vezes, a própria família de origem.


A família é uma instituição que precisa ser dessacralizada e desmitologizada sem piedade, para que possamos nos libertar do ruim que ela traz e trabalhar no bom que ela pode fazer. Por amor ao amor deve-se ter a coragem de rasgar véus e estourar balões de ilusão.

Nascemos com muito amor para dar, mas a vida em família consegue nos transformar, por vários motivos, alguns óbvios outros ocultos, em cactos: pessoas com dificuldade de se relacionar, com complexos, dúvidas, angústias que afastam e mantém o amor longe, o próprio e o alheio. Os outros percebem sem necessariamente ter consciência e não sabem o que fazer porque abraçar tal pessoa, ou seja, estar emocionalmente aberta e genuinamente disponível a ela leva a ser feridos pelos espinhos, não “abraçá-la” leva frequentemente à culpa. O que fazer?


Após superar o sentimento de culpa e de pena, a dor pelo amor engolido a seco, depois de finalmente compreender a situação, percebe-se que com cactus só há uma maneira de agir: manter as distâncias. Observando com atenção, notamos que alguns possuem espinhos muito compridos, outros curtos, daí o espaço que devemos colocar entre nós e eles. Há também exemplares cujos espinhos são finos e pequenos, praticamente invisíveis. Com estes é preciso cautela redobrada porque quando menos se espera estamos cheios de agulhinhas transparentes enfiadas nos braços (que demora um tempão para arrancarmos!), tamanho é o estrago.


Há também situações-cactus, não só pessoas-cactus. A família é um dos melhores exemplos de situação-cactus. A pessoa consciente e bem-intencionada que não quer se enrolar nas teias familiares, mas também não quer deixar de estar presente, até só para lembrar aos outros que há diferentes modos de estar no mundo, esta pessoa deverá saber manter a distância sendo, ao mesmo tempo, flexível pois com frequência pisará em terreno minado. Não há garantias de sucesso, tudo é a risco e perigo para quem ousar.


Aprendendo a manejar cactus, encontramos os pontos por onde podem ser abordados: há somente pequenos espaços de contato. Se somos do tipo que gostaria de "correr pelos campos junto aos amigos debaixo do sol luminoso", podemos ficar desapontados se, ao invés disso, tudo o que conseguimos são uns poucos passinhos raquíticos. Se para nós são totalmente sem graça, para a outra pessoa podem ser maravilhosos. É o que ela pode fazer. É até onde ela pode chegar.


E esta é a questão. Amar é uma dimensão que tem o tamanho da personalidade e da consciência de cada um. Se carrego um saco cheio de amor sou rica, mas isso não significa que poderei despejar meu amor no bolsinho da outra pessoa, pois esta não vai se sentir amada. O amor apreciado e abençoado deve ter o tamanho que o outro pode receber. Os "cheios de amor" podem passar pela triste experiência de ter que se "mutilar", calar e recolher, no ápice da vontade de amar. Amor só funciona se for recíproco e de mão dupla. Fora isso ou é dependência ou é neurose.


Quanto maior o sofrimento interno menor a capacidade de amar. É por isso que, quando observarmos e notarmos pouca abertura ao amor como abordagem à vida, podemos concluir que há muito sofrimento psicológico.


Infelizmente, são muitas as pessoas às quais silêncio e ausência é tudo o que podemos oferecer, pois já esgotamos todos os recursos e é preciso preservar nosso instinto de auto-conservação. Há indivíduos que sequer podem ser abordados, porque além dos longos espinhos vivem como numa contínua ventania que torna impossível chegar-lhes perto.


O viajante solitário "cheio de amor para dar" deveria sempre carregar consigo: consciente vigilância, coragem para se distanciar quando for preciso, e a chama viva do amor. Como diz minha filha, "I'm just here for the love" (Estou aqui somente para o amor). O resto, deixe-o cair.



Adriana Tanese Nogueira - Psicoanalista, Filósofa, Life Coach, Terapeuta Transpersonal, Terapeuta de Flores de Bach, Autora. www.adrianatanesenogueira.org e www.aellaedu.com - Boca Raton, FL-USA. + 1-561-3055321

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