• Adriana Tanese Nogueira

DAR GRAÇAS

Damos graças a Deus que o dia está lindo, porque queremos ir à praia. Damos graças à mãe que fez a nossa comida predileta. Damos graças, enfim, ao amigo que nos ouviu, ou prestou dinheiro, ou foi conosco ao dentista... Damos graças quando recebemos algo que precisamos e que queremos, algo do qual estamos conscientes que nos falta, que desejamos e almejamos.


E o que dizer quando recebemos o que não queremos? E se houvesse a possibilidade de recebermos o que precisamos, mas do qual não temos consciência e que certamente não queremos?


Dar graças inclui isso: saber ir além do que desejamos para descobrir o que precisamos sem que o saibamos, focados como estamos em outras coisas, ou melhor, distraídos como estamos com coisas que não são as que de fato importam.


Há um belo ditado italiano que diz: “Fecha-se uma porta, se abre um portão.”


Reparei várias vezes na minha experiência pessoal e clínica que fixar-se num objetivo que não conseguimos alcançar pode nos tira forças e visão do caminho ao lado que se abre. Já há muito tempo aprendi a navegar na vida, ou melhor, a dançar na vida. Não se vive marchando, se vive dançando – e a música muda o tempo todo. Daí aprender a ser flexíveis na mente, nas expectativas e nas ideias é essencial.


Viver com mais serenidade diante do inesperado implica não ter o ego com seu arsenal de ordens no controle. Como seria, então, significaria deixar que aconteça? “Entregue a Deus”, diria alguém, “Seja como Deus quiser”... O povo brasileiro está cheio de ditados que exortam a deixar “Deus no comando”... Para saber se esta proposta funciona baste ver como anda a vida individual e aquela coletiva: que vida criaram para si e para a sociedade que os rodeia?


Pois a questão é: onde está Deus? Como faço para saber se deixar acontecer é passividade minha ou fé? Malandragem ou força interior? Sabedoria ou irresponsabilidade? O “Seja como Deus quiser” facilmente se torna: “Seja como quem é mais forte quiser”. Logo: passividade, ignorância e desânimo diante da vida são a regra.


Ao contrário disso, acredito que a vida tenha que ser responsabilidade de cada indivíduo e que cada um tem a tarefa de dar à própria história sentido e valor. Acredito também que sentido e valor são verdadeiros quando beneficiam a todos, tanto ao indivíduo que de forma consciente e madura assume sua existência como às pessoas que com ele convive, até à coletividade em seu conjunto.


A maturidade que procura dar significado à vida é desenvolvida na medida em que superamos a visão míope dos desejos imediatistas e autogratificantes do ego para olhar mais longe e mais profundamente. Por exemplo, permanecer amarrados ao lucro no lugar de ao valor da coisa nos aliena do sentido existencial de nossa própria vida. Desta forma, tudo o que é individual e único se torna um empecilho para obter a recompensa tão almejada que nos daria lustro aos olhos do mundo de imagens no qual nos espelhamos.


Alienados de nossa essência, perdemos a conexão com os demais humanos, com a terra, os animais, com a vida em si que pulsa dentro de nós. Confusos e distraídos, não temos como dar graças aos milagres que a vida nos brinda a toda hora. Milagres que não esperávamos porque estávamos ocupados em reclamar. Milagres que não desejamos porque não era o produto Instagram no qual nossa fantasia está fissurada. Milagres que desqualificamos porque não são os objetos que nossa mente distorcida está acostumada a querer.


Milagres, porém, que falam de superação e conquistas. Pequenas talvez, diante do tanto que se quer, do quanto falta. Milagres, entretanto, que mostram que há um caminho que precisa ser percorrido, longe dos holofotes, na penumbra da nossa alma. Um caminho que esquenta nosso coração, pois só nós sabemos do custo de nosso viver.


Dar graças à nós mesmos por termos conseguido chegar até aqui. Botar o ego para calar um pouco e olhar com carinho para as nossas dores superadas e aguentadas; para as feridas lambidas, as lágrimas enxugadas, à intuição que acompanhou, àquela pequena voz que fala verdades difíceis e boas.


Dar graças à luz que habita em você por ela ainda estar com você.




Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, intérprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto (www.amigasdoparto.org), do AELLA - Instituto Internacional de Educação Psicológica e Espiritual (www.aellaedu.com) +1-561-3055321

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