• Adriana Tanese Nogueira

DEPRESSÃO FEMININA: A GREVE INTERNA

E. deixou um dos países da América Central com o marido para vir aos EUA. Na época eles tinham uma filhinha que E. havia criado praticamente sozinha, já que o marido vivia viajando. Durante alguns anos moraram com a família dele no frio de um país estrangeiro, fazendo sacrifícios. Enquanto ele estudava para se tornar médico, terminando o currículo já iniciado em sua terra natal, ela cuidava da filha, engravidando uns anos depois do segundo filho. A conheci quando sua menina estava com 12 anos, uma garota interessante, físico de esportista, e sem mimos. Em seu país, E. era professora colegial. Disse-me que prezava muito a educação tanto que, mudando-se para o calor da Flórida, havia feito questão de garantir que as crianças tivessem boas escolas, mesmo o marido tivesse que dirigir uma hora para chegar ao trabalho. E. tinha um emprego de meio período como auxiliar de professora num maternal; havia recusado mais de uma vez o cargo de professora efetiva porque “era muita responsabilidade”. Contava-me, na pressa dos nossos encontros entre uma atividade e outra das crianças, que hoje em dia poderia parar de trabalhar pois o marido ganhava o suficiente, mas não queria ficar só em casa. Suavemente queixava-se de passar muito tempo na cozinha, pois filhos e marido “não estavam acostumados a comer comida que não fosse fresca”. E, com um sorriso, corria até o carro. Um dia minha filha foi brincar na casa dela. Ao buscá-la, a encontrei muito animada no quarto da amiga. Notei que elas conseguiam se divertir a despeito da interferência insistente e barulhenta do irmão de 5 anos que se intrometia física e verbalmente, lançando objetos contra as duas que entretanto mantinham a conversa. Observei perplexa. E. levou-me para a sala. O menino atrás, resmungando alto, insatisfeito e agitado. Olhou-me feio. Grudou-se na mãe, dando-me as costas. Sorrindo sem graça, E. disse que ele era “terrível”, mas que agora estava até “um pouco melhor” já que havia aceitado que a irmã trouxesse uma amiga.

Levantou-se do sofá para ir ao quarto me mostrar o problema do computador que lhe impedia de fazer um trabalho que havia se comprometido a fazer para mim. Notei sua falta de familiaridade com o aparelho. O menino andava atrás, barulhento. Vejo aparelhos de ginástica que ela prontamente justifica dizendo que o marido fazia exercícios regularmente, além de correr pelo quarteirão. Interessante, pensei, trabalha o dia todo e gasta uma hora para ir e uma para voltar do trabalho, tem dois filhos e ainda consegue tempo para os exercícios. Enquanto isso, os gritos do menino ecoavam à minha volta. Terminamos na cozinha, onde E. me mostra os preparativos para o jantar e como ela consegue se organizar para tornar tudo o mais prático possível. Finalmente, eu e minha filha nos despedimos. Meses depois nos cruzamos no supermercado. Ela sorri sem graça. Desculpa-se por ter “sumido”, não cumpriu o compromisso comigo, mas, explicou, “estive muito doente”. O que aconteceu? Perguntei. “Passei muito tempo de cama”. “Por que?” “Fui diagnosticada ‘maníaco-depressiva’”.


Na prática, E. caiu de cama, chorou muito, ficou apática, parada. Exausta. O marido a levou para um colega que emitiu o diagnóstico e receitou-lhe remédios. Agora estava melhor, mas “não totalmente recuperada”. Faço algumas perguntas, desconfio do diagnóstico. Ela admite que seus sintomas não se enquadram no padrão maníaco-depressivo: “Eles dão esse diagnóstico para todo mundo hoje em dia...!” Observo-a, vi uma mulher inteligente, profundamente infeliz e insatisfeita com sua vida. Aprisionada, paralisada e dependente. Converso com ela, de mulher para mulher. Não são remédios que vão “curá-la”, porque a “doença” é a vida que está torta e somente ela pode endireitá-la. Conheço inúmeras mulheres de valor sofrendo caladas, tomando remédios e chorando às escondidas, carregando a vida como uma cruz, com vergonha de não estarem feliz “como deveriam”. Ela me agradece de coração. Nos despedimos, “Vou te procurar”, ela diz. Mas eu sei que, até para conseguir a ajuda certa, é preciso vencer uma resistência interior que muita vez começa em casa. O marido, clínico geral alopata, não teve olho clínico e interesse para reconhecer um mal da alma. Tristeza, depressão, raiva e agressividade são movimentos da psique, não transtornos do corpo. Agora, o comportamento do filho de 5 anos faz sentido: não estará ele expressando a revolta negada da mãe? A tensão invisível da família? Um lar onde a mulher está infeliz não pode ser um lar feliz.



Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, intérprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto (www.asmigasdoparto.org), do AELLA - Instituto Internacional de Educação Psicológica e Espiritual (www.institutossc.com) e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

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