• Adriana Tanese Nogueira

O MALANDRO SINCERO

Atualizado: Ago 26

Pelo menos uma vez na vida, você deve ter se perguntado como pode um malandro parecer tão honesto, ou melhor, como é possível que haja malandros que pareçam verdadeiramente límpidos, gente do bem que quer fazer o bem, e conseguem lhe convencer de sua completa candura interior.


Você não é burro, já encontrou vários malandros e sabe como funcionam, conhece seus jeitos e trejeitos, falas e movimentos. Mas, na hora, você jura que o tal sujeito é verdadeiro, que é uma pessoa confiável e você até gosta dele pra caramba! Sente uma alegria no coração por ter encontrado uma pessoa tão legal e interessante, e ainda por cima interessada em fazer o bem de seus semelhantes.


Mas aí, após uns tempos, e longe da pessoa (é importante este detalhe: estar afastada da pessoa e observar de longe) se percebe que tem algo estranho. O tempo passa e você nota que há uma incongruência entre o sentimento que a pessoa lhe despertou e suas ações, o consideramos retidão e boa-fé. De onde vieram? Você repensa então em seu primeiro encontro com a tal pessoa, nada naquele momento parecia “errado” e “desonesto”...


Honestidade significa, entre outras coisas, ser consequentes, ou seja, você cumpre o que promete, fala o que pensa e faz o que diz. Honestidade significa integridade, implica coerência interna psicológica, cognitiva e de comportamento, e é porque falta essa consistência que chegamos à conclusão que aquela inocência que na hora nos tocou o coração não era pura. Como é possível um indivíduo ser profundamente malandro e profundamente sincero ao mesmo tempo?


Há uma explicação para isso, as coisas são menos malucas do que parecem ou mais malucas do que parecem – dependendo do ponto de vista.


É possível abarcar opostos dentro de si: basta não se aperceber deles! Basta manter-se internamente divididos numa espécie de esquizofrenia normatizada. Uma pessoa dividida internamente, pode na hora em que falar com você, por exemplo querer lhe vender um produto ou uma ideia ou o que for, ser de alguma forma verdadeiramente sincera. É como um ator que faz tão bem sua parte que lhe convence por completo porque ele mesmo está totalmente comprometido com a parte que está atuando. Ele está compenetrado de sua própria crença em sua sinceridade e é este convencimento dele que ele consegue vender!


Mas nem tudo o que ele é está sob a luz do sol, visível. Eis o truque. A pessoa possui em si outros aspectos, outras agendas, outras partes de si mesma. Na hora do encontro entre vocês, ela é capaz de colocar qualquer outro conteúdo próprio de lado e mergulhar completamente no motivo de sua reunião e, claro, irá parecer perfeitamente franca. Um amor de pessoa!


Infelizmente, nem sempre há como saber dos bastidores e outros cenários por trás das aparências, porque estas podem ter sido trabalhadas com tamanha fineza que, na hora, é impossível discernir algo destoante.


É somente no tempo e observando os demais comportamentos e escolhas da pessoa que temos uma visão mais completa dela e de quem realmente é. É como se várias pessoas convivessem dentro de um corpo só. Mas a pessoa “não o sabe”, como diz o ditado: não saiba a mão direita o que faz a esquerda. Ela acredita ou está empenhada em acreditar, tão sinceramente no papel que exerce, que simplesmente omite a si mesma o “resto”. Com esta especial forma de loucura “normalizada” se obtém o pacote inteiro: o amor do mundo por “estar fazendo o bem” e a obtenção daqueles desejos não tão nobres e bem ocultos ao mesmo tempo. E assim vivemos no mundo dos loucos.



Adriana Tanese Nogueira - Psicoanalista, Filósofa, Life Coach, Terapeuta Transpersonal, Terapeuta de Flores de Bach, Autora. www.adrianatanesenogueira.org e www.aellaedu.com - Boca Raton, FL-USA. + 1-561-3055321

Photo by Amol Tyagi on Unsplash


texto sobre o malandro e a psicanálise

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