• Adriana Tanese Nogueira

O PREÇO A SE PAGAR PARA A REALIZAÇÃO PESSOAL

Mara, cansada de sua análise freudiana que não a estava levando muito longe, enveredou pela “espiritualidade”. Na busca de autoconhecimento por este caminho, se formou em terapia transpessoal. Viu no Instagram de uma amiga alguma coisa minha, seguiu minha página e decidiu que o que eu tinha a oferecer era o que ela procurava.

Na noite antes de nossa primeira sessão ela sonha:

Estou numa loja tipo papelaria, havia pego algo da loja sem pagar. Era uma peça pequena eletrônica e redonda. Resolvo voltar para pagar, chego ao balcão e pergunto para a mulher dona da loja, cujo nome era Terezinha, o preço. Considero o valor que ela me cobra alto demais e argumento. Ela conversa comigo. Eu não entendo muito bem o que ela fala, ela me explica e eu continuou não entendendo. Aí, ela sai de trás do balcão, me abraça e vai conversando comigo até a rua. Ela é super-gentil e solicita, mas eu não entendo a sua mensagem.

Pergunto o sentido daquele nome, Terezinha. Ela logo me responde que aquele era o dia de Santa Terezinha. É só. Não sei nada sobre a santa e Mara não acrescenta qualquer outra informação, entretanto ao narrar o sonho ela se lembra de que, em nosso primeiro contato, ela me havia pedido um desconto – que eu não havia dado. Não sou inflexível nessas coisas, mas por alguma razão, que o sonho me explicou depois, nesse caso não dei.

Somente após a sessão, pesquiso sobre a santa. Da Wikipédia: “Teresa de Lisieux, O.C.D., nascida Marie-Françoise-Thérèse Martin, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face, foi uma freira carmelita descalça francesa conhecida como um dos mais influentes modelos de santidade para católicos e religiosos, em geral por seu ‘jeito prático e simples de abordar a vida espiritual’. Juntamente com São Francisco de Assis, é uma das santas mais populares da história da Igreja. O papa Pio X chamou-a de ‘a maior entre os santos modernos’. O impacto de sua A História de uma Alma, uma coleção de seus manuscritos autobiográficos publicados e distribuídos um ano depois de sua morte, foi tremendo e ela rapidamente se tornou um dos santos mais populares do século XX. Foi nomeada co-padroeira da França (com Santa Joana d'Arc) em 1944.”

Em seu leito de morte, Teresa disse: "Eu amo apenas simplicidade. Tenho horror à pretensão". Era dela a frase: “No coração da Igreja, serei o amor”. Falava sempre que o que conta é o amor, só o amor. “A profundidade de sua espiritualidade, que ela qualificou como ‘toda de confiança e amor’, inspirou muitos crentes. Confrontada com sua própria pequeneza e irrelevância, confiava em Deus para ser sua santidade.”

Premito o que deveria ser óbvio, ou seja, que não se trata aqui de endossar o catolicismo (ou qualquer outra religião). Estamos fazendo psicologia profunda. Dito isso, a pergunta espontânea que segue é: por que o sonho trouxe essa santa?

Há um dilema da sonhadora: ela não quer pagar o preço. O inconsciente lhe mostra o impasse nessa cena de sonho.

Ela, a sonhadora, já havia se apossado de um objeto da loja. Algo redondo e eletrônico. O redondo remete ao Si-mesmo, sempre. O círculo é a figura perfeita desses os primórdios dos tempos. Eletrônico... talvez por que a sessão era online?

A sonhadora está em busca de sua inteireza, de sua essência para poder desabrochar em sua realização pessoal. ...Mas ela não quer pagar o preço. Ela pega, devendo estar acostumada a receber... sem dar. O inconsciente, porém, a alerta: a dona da loja não é nada menos que Santa Terezinha, excluindo assim a possível interpretação do preço como ganância e egoísmo. O foco dessa dona da loja (ou diria do consultório?) é o amor, um amor que se fundamenta na relação com seu próprio Si-mesmo, ele é o garante. Ela se sabe pequena.

Importante ressaltar que este amor não é o amor gratificante da mãe que doa, doa, doa, alheia às próprias necessidades. Também não é aquele “amor” que se doa mantendo, ao mesmo tempo, o outro preso na dependência filial, infantil. Este amor custa. Porque este amor é amor que está ligado ao sentido da vida, à realização da vida, à descoberta do sentido. É um amor vinculado à busca intelectual, e que é também vivência sensível e concreta no mundo. Este amor tem um preço.

O valor positivo da Dona Terezinha da loja está posto em evidência também pela gentileza e disponibilidade em conversar com a sonhadora. Esta, porém, não a compreende e é suavemente levada para fora da loja. Por que a loja é algo tipo papelaria? Talvez porque é onde se vende cadernos e canetas: material indispensável para escrevermos a nossa vida narrada diariamente em sonhos e reflexões.

Reconstruir nossa vida a partir “de nossa alma”, como fez Santa Terezinha em sua A História de uma Alma, é uma das principais ferramentas da psicanálise, sobretudo quando de cunho junguiano.

A psicanálise surge como um projeto de conhecimento da psique que é sempre autoconhecimento, pois somos esta psique que se conhece. Inevitável, portanto, a reconstrução da história da nossa vida, mas não do jeito que estamos acostumados a entender, via fotos, relatos de experiências e testemunhos de outros. A isso tudo precisamos acrescentar a vida interior. Aquela que a gente não vê, que fica no silêncio sofrido ou embaraçoso daquilo que não queremos ou podemos verbalizar, naquela vida íntima da qual mal falamos com nós mesmos, naquele emaranhado de lembranças, emoções, medos, angústias, dúvida, névoas psíquicas que nos involucram, às vezes de repente, sem que saibamos o que está acontecendo conosco. E lá vamos nós tomar um remédio, inventar uma distração, usar um subterfúgio para fugir de casa – a única casa que possuímos: a nossa psique.

Essa é a história que precisamos contar, e melhor se for a mão, com caneta e caderno. A escrita manual dá tempo de pensarmos, de saborearmos as palavras que emergem em nossa mente. Deixar vir o fluxo e aos poucos fazer a experiência do clarear interior. Aos poucos, irá vindo à tona o que é que que estamos de fato sentindo, e...

E talvez não gostemos de ver, de saber. Entretanto, é somente por este diálogo interno que aprenderemos a dança entre consciência e inconsciente que enriquece nossas vidas com novas possibilidades, relativizando os condicionamentos sociais, reciclando os significados, abrindo novos horizontes. Por este diálogo, encontramos aquele fio da meada que é como a coluna vertebral de nossa existência: sem ela tudo cai por terra, sem ela estamos diante de peças soltas de um quebra-cabeça desconhecido.

Pergunte-se: quem é você? É aquilo que conquistou na vida? E se não tiver conquistado o suficiente, você é menos? E se não tiver alcançado o que outro têm e você considera louvável? Quem é você, o reflexo do que os outros te espelham?

A psicanálise nasce com o propósito não verbalizado, mas implícito, de preencher essa lacuna. Somos mais do que o resultado daquilo que os condicionamentos sociais e culturais impõem sobre o indivíduo. Muito mais.

Para superar esse limite, é preciso engajar-se numa jornada interior e esta tem um preço. A sonhadora não estava pronta para compreender a mensagem. Retornará quando estiver. Enquanto isso, a dona Terezinha continua feliz atendendo em sua loja.

Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, filósofa, life coach, terapeuta transpessoal, intérprete de sonhos, terapeuta Florais de Bach, autora, educadora perinatal, fundadora da ONG Amigas do Parto (www.asmigasdoparto.org), do AELLA - Instituto Internacional de Educação Psicológica e Espiritual (www.institutossc.com) e do ConsciousnessBoca.com em Boca Raton, FL-USA. +1-561-3055321

Photo by Michael Dziedzic on Unsplash




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