• Adriana Tanese Nogueira

POR QUE AS PESSOAS SÃO TÃO APROVEITADORAS?

A resposta à pergunta acima é "Porque permitimos que o façam".

Ocorre um problema sério com algumas pessoas boas que gostam de pessoas: elas insistem em ser disponíveis e generosas obtendo como resultado ser usadas e desrespeitadas. Quando finalmente se dão conta, se sentem traídas, tristes e decepcionadas. Muitas tendem a endurecer no ressentimento; outras se deprimem sem saber como reagir de forma a salvar tanto sua bondade como a confiança nos outros.

Numa cultura onde feminino e masculino vivem divorciados, coração e inteligência não se conversam. Nesse contexto ser bom geralmente significa ser tolo e vulnerável. Quantas pessoas espertas você conhece que podem chamar de boas? E quantas pessoas boas pode nomear que são espertas? Estou falando de pessoas boas, não das sonsas. Ser bom é fazer e dar sem pedir nada em troca; ser sonso é ser dócil para conseguir algo em troca.

Pessoas boas geralmente lidam ou com gente sorrateiramente egoísta (as sonsas e cegas) ou com asexplicitamente egoístas (as autoritárias e insensíveis). Continuar sendo disponíveis com pessoas assim não vai tornar essas pessoas repentinamente melhores, como se pudessem receber uma iluminação improvisa e fossem ficar com vergonha de terem se aproveitado de alguém por tanto tempo. Não, muito pelo contrário: dar sem receber alimenta o egoísmo do outro. Generosidade cega nutre o aproveitamento alheio. A disponibilidade incondicional dá suporte à prepotência do outro.

A alternativa é ser inteligentemente bons. Unir a cabeça ao coração e, consequentemente, abrir os olhos e sair da fantasia. Os seres humanos incluem em si um emaranhado de motivos, tendências, problemas e intenções. Ao queremos ser bons, cabe a pergunta: exatamente com o que se é bons? Com qual intenção, tendência, comportamento do outro estamos sendo bons? Quando dizemos "sim", o que estamos apoiando no outro? E o nosso "não" põe limites no que exatamente do outro?

Essas perguntas se respondem com outras perguntas: O que queremos incentivar? Quais são nossos valores? Que relação queremos? E sobretudo: o "sim" e o "não" que eu digo ao outro já os disse antes para mim mesma?

Permitir o comportamento do outro não é sinônimo de bondade, mas de passividade e inconsciência. Há atitudes que devem ser interrompidas. Muitas vezes, as pessoas sequer se dão conta do que fazem e jamais irão se aperceber até não encontrarem um obstáculo na sua frente. Esse obstáculo é você quando diz "não". E esse "não" tem que ser tanto mais firme quanto mais intensa for a tendência do outro ou quanto mais antigo for o comportamento que se quer modificar.

Saber dizer "não" implica se dar o direito de se proteger, de querer receber algo em troca e de ser feliz. Muitas vezes, essa "bondade", que como um tiro sai pela culatra, só se compreende quando se observa com mais profundamente e se dá uma olhadela no nível de autoestima da pessoa. Baixa autoestima busca aprovação dos outros, apoio, carinho e reconhecimento. E como pretende obtê-los? Dando! No fundo o super-bom, dá para poder receber carinho e aceitação. Tem medo de estabelecer limites e de perder as pessoas, que porém não pode conquistar de verdade sem antes se respeitar.

A busca inconsciente por amor e aprovação está na raiz daquela bondade que acaba por ser abusada pelos outros. E estragamos o conceito tão bonito da bondade. Precisamos salvar a bondade distribuindo-a inteligentemente e semeando-a no terreno fértil dos corações abertos. Os demais precisam antes de educação. E você, pessoa boa, de consciência. A crise que nasce da realização de que aproveitaram de nós é a crise existencial pela forma como temos conduzido nossa vida.


Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, Filósofa, Life Coach, terapeuta transpessoal, Florais de Bach terapeuta, autora. www.adrianatanesenogueira.org. Boca Raton, FL-USA. + 1-561-3055321

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