PSICANÁLISE: SUCESSO, FAMA E DINHEIRO
- 11 de jan.
- 4 min de leitura
Reflexões críticas sobre clínica, ética e mercado
Adriana Tanese Nogueira
Psicanalista clínica
Este texto é um ensaio crítico e autoral sobre a transformação da clínica psicológica e psicanalítica em produto de mercado. Não se trata de um artigo científico, mas de uma reflexão teórica fundamentada na prática clínica e na observação da cultura contemporânea.
Psicanálise como negócio.E, em geral, terapias como negócios.
Se são negócios, precisam ser rentáveis. Busca-se a psicanálise — e as terapias — para, sim, ajudar os outros (como é bonito dizer), mas sobretudo para ganhar dinheiro. Exatamente como ocorre no modelo atual da medicina: faz-se medicina porque rende. Medicina como braço das indústrias farmacêuticas. Medicina como negócio.
Como ter sucesso nessa lógica?
Simples, como em qualquer empreendimento: vestindo a camisa do mundo dos negócios.
Há vários estilos possíveis:
Os “na caixinha”: terno, gravata, maquiagem, óculos.
“Eu valho porque sou sério, tenho status, pareço ocupado, confiante, bem-sucedido.”
O visual do profissional validado pelo sistema.
Os descolados: falam “na lata”, chocam, sacodem, provocam — tudo para atrair clientes ao consultório.
As sentimentais (em geral, mulheres): acolhem, nutrem, cuidam. Tornam-se “boas amigas” que escutam tudo.
No mundo dos negócios, o que conta são os números.No mundo da medicina, contam as patologias.Quanto mais doenças diagnosticadas, mais pacientes, mais lucro — para médicos, terapeutas e indústrias.
Apliquemos isso à psicanálise.
Do ponto de vista do terapeuta:
Denunciam-se sintomas com tapas metafóricos na cara.
Explicam-se os sintomas, especialmente os problemas de relacionamento, que atraem mais atenção.
Os “na caixinha” exibem seu ar altivo, respaldados por um sistema que se reflete em sua aparência impecável.
Os descolados vendem-se pela irreverência e pelo choque.
As sentimentais apelam às dores femininas e à carência afetiva.
Do ponto de vista dos pacientes:
Sentem-se incapazes por não “agirem direito”.
São intimidados por profissionais que se colocam como donos do saber.
São encaixados em diagnósticos-padronizados.
São seduzidos a se tornarem parecidos com seus “curadores”.
São culpabilizados, instigados, provocados.
Ou seja: são objetificados.
Paciente-objeto de cura, de estudo, de intervenção — exatamente como na medicina tradicional.(E chega de usar animais como cobaias; esse paralelo não é acidental.)
A psicanálise tratada como negócio foca no sintoma, não na totalidade da pessoa. Ignora o contexto: o meio social, o bombardeio de informações, estímulos e seduções — as armadilhas psicológicas do marketing. Vivemos em um mundo social e virtual caótico, muitas vezes mais “real” que a realidade material. Isso gera desorientação, confusão mental, crise de valores.
E você, terapeuta, não está fora disso.Seus potenciais pacientes querem o mesmo que você: sucesso, fama e dinheiro.Eles mostram o lado ferido da vida; você exibe o lado “poderoso”.Duas faces da mesma moeda, movidas pelo transe do nosso tempo: tudo, agora, a qualquer custo.
Esse é o padrão da época.É natural que terapeutas o reproduzam — natural no sentido de frequente, não no de saudável. É um dos grandes fatores do adoecimento coletivo.
Vivemos uma cisão crescente entre o que somos e o que mostramos. O coletivo molda a psique individual de forma avassaladora — e isso gera sofrimento. A individualidade é esmagada pela ditadura dos valores coletivos. Esse sufocamento aparece na dificuldade de romper vínculos, tomar decisões, escolher caminhos, confiar no próprio juízo. Coaching intensivo não resolve: é como inflar um pneu furado.
O problema é sempre psíquico. Sempre interno.Meios externos existem. O que bloqueia é a confusão mental — de valores, de propósitos — somada à baixa autoestima.
Mas autoestima não se constrói por slogans. Ela nasce da experiência de ser capaz, útil, reconhecido por algo que realmente se sabe fazer.
A busca por fama, dinheiro e sucesso esconde outra coisa: o desejo de sentir-se importante, de realizar algo valioso, algo que contribua para o mundo e, ao mesmo tempo, expresse quem se é. Ninguém suporta fazer a mesma coisa para sempre sem crescer. É o crescimento pessoal que sustenta qualquer projeto vivo.
Quando esse caminho não é tomado, resta o outro: vestir a máscara do vencedor. Muitos tentam e falham — e chamam isso de autossabotagem. Mas tudo tem um preço. Avaliar o sucesso de alguém exige olhar além do Instagram: saúde, relações, intimidade, contribuição real.
Vivemos uma crise de sentido.Jovens, velhos jovens, adultos — todos.Qual é o seu sentido de vida?Por que você vive?Para quê?
A perda do valor individual está na raiz do mal-estar contemporâneo. Sem sentido, a pessoa se esvazia e corre para fora. Intensifica distrações, prazeres rápidos, anestesias emocionais — e aprofunda o vazio. Ansiedade, angústia, pânico, depressão são expressões desse processo.
Ignorando essa raiz, vende-se terapia como se vende produto: cria-se a necessidade, oferece-se a solução, alimenta-se o ciclo.
Essa lógica implica:
desconhecimento da psique e do inconsciente;
miopia sobre o humano, seu destino e sentido;
interferência de valores culpabilizantes;
ausência de uma visão ética, recíproca e humanizada;
empobrecimento da profundidade psíquica.
Convém lembrar:
Psicanálise não é produto.
Psicanálise é ruptura de sistema.
Psicanálise é sentido de vida.
Psicanálise é um modo de estar no mundo, revisto continuamente.
Psicanálise é processo individual e individualizante.
Psicanálise é teoria viva.
Psicanálise é pensamento crítico.
Psicanálise é amor — sem meleca, sem manipulação.
O foco da psicanálise não é sucesso, fama ou dinheiro.
Psicanálise precisa ser em devir porque a vida da qual toma consciência é em devir — vida inteligente e amorosa.
O resto é consequência.




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