• Adriana Tanese Nogueira

SABER SABOROSO E SABER INSÍPIDO

Já aconteceu com você de assistir um filme e no dia seguinte esquecê-lo por completo? A experiência não deixou marca. Vice-versa, você pode assistir uma história que reverbera em você por dias e até anos.


O primeiro caso é de um conhecimento insípido o segundo de um saboroso. O primeiro não trouxe qualquer informação nova e se trouxe, esta não penetrou em seu ser, ora porque o filme era banal, ou seja, insípido ora porque você não estava de fato lá e sim com a cabeça em outro lugar. Foram umas duas horas de sua vida entre parêntesis, num vácuo suspenso onde você não estava... onde estava, a propósito? Talvez nem você o sabia, mas essa é outra questão.



O que eu quero frisar aqui é que hoje, num tempo em que podemos ter acesso a todo o conhecimento produzido pela humanidade em sua história, hoje temos que discernir entre conhecimento saboroso e conhecimento insípido. Mas não só: precisamos também inserir na relação quem faz conhecimento saboroso ou não, ou seja: você.


Não podemos saber tudo. Não se trata, certamente disso e seria tolo achar que este seja um patamar a ser alcançado. Inclusive, “o que sabemos que não sabemos é apenas uma pequena fração do que não sabemos que não sabemos”. Virtude é ter a magnanimidade de reconhecer à ignorância seu lugar, sem negá-la para depois, desapercebidos, esbanjá-la nas entrelinhas de conhecimentos insípidos e no explícito de comportamentos irrefletidos.


Não, se trata de identificar o que é conhecimento válido para nós, conhecimento necessário, urgente, essencial para o momento presente (lembrando que todo e cada dia é “o momento presente”) e aí discernir entre o saboroso e o insípido. Ninguém come qualquer coisa: vamos aprender a escolher também entre os diversos conhecimentos oferecidos no mercado livre da internet?


O conhecimento saboroso é aquele que, como diz a palavra, tem saboroso: deixa um gosto a boca, deixa a pensar, desce devagar em nossos sistema, vai se instalando lentamente e desinstalando outros conhecimentos que agora se apresentam como nulos ou insulsos. O saber saboroso cria mudanças. O saber insulso pode agradar ao paladar no momento, ou seja, pode afagar ao ego porque é o que este deseja ouvir, mas não nutre. Balas nutrem? Mesmo as embrulhadas com plástico colorido e cintilante... Não, não nutrem.


Raciocínio e discernimento, em primeiro lugar! Pergunte-se: de qual conhecimento preciso hoje? O que é importante para mim saber agora? Digo “agora” porque sem saber o agora não tenho como dar o passo que vai me levar ao amanhã. Daí, o “agora” ser o centro do mundo nesse preciso momento.


A noção de “saber”, por um lado, abraça ideias relacionadas a conhecimento, capacidade e consciência; por outro lado, o significado ancestral de saber decorre de sabor. O conceito de “saber” toma forma como uma metáfora para “sabor”. “Inteligência, sabedoria, habilidade, consciência, em um antigo mundo pré-urbano, indo-europeu, antes da escrita, tomam forma, tomam contornos definidos como condimentos de sentido - como primeiros prazeres. Sua apreciação tem um imediatismo sensorial.” (Unaparolaalgiorno.it)


Logo o saber insípido é o sem sal, tolo, sem textura ou consistência. Não sustenta e não se sustenta diante da argumentação crítica, não deixa marcas, passa batido, rápido quanto dispensável. Embaça a visão, distrai mentes cansadas de tantas distrações, mantém a visão curta e ilude o coração. Saber insulso, comum e corriqueiro, sem consequências. O saber tem consequências, sempre.


O sábio é quem, tendo saboreado o conhecimento, tendo sentido o conhecimento na pele, se dado o tempo para digestão e assimilação, tendo acompanhado o caminho das ideias na realidade concreta de sua vida pessoal e social, pode dizer que sabe o que sabe, sem nunca perder de vista a enorme extensão do que (ainda ou para sempre) não sabe.


Adriana Tanese Nogueira - Psicanalista, Filósofa, Life Coach, terapeuta transpessoal, terapeuta de Florais de Bach, autora. www.adrianatanesenogueira.org. Boca Raton, FL-USA. + 1-561-3055321

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