• Adriana Tanese Nogueira

Silvia Montefoschi

Segue o artigo do jornalista Marco Garzonio do jornal Il Corriere Della Sera do dia 21 de março de 2011 (data da passagem de Silvia Montefoschi)


Morreu Silvia Montefoschi, a psicanalista que, em continuidade com Jung e numa cultura psicológica masculina, se distinguiu como uma das vozes mais qualificadas, corajosas e originais na elaboração de modelos teóricos, na prática terapêutica, na formação de profissionais.


Nasceu em Roma em 1926 e aí se formou na escola de Ernst Bernhard, O médico que introduziu Jung na Itália e que teve como pacientes Federico Fellini e Natália Ginzburg, manteve contato com Bobi Bazlen, entre os fundadores da Editora Adelphi, graças à qual se difundiu um saber psicológico atento aos mitos, ao irracional, à sabedoria oriental, à religiosidade e autônomo com relação ao freudismo então dominante.


Transferindo-se para Milão, Montefoschi representou um ponto de referência importante nos anos 70 e 80. Os seus livros, publicados por Feltrinelli, na importante coluna de Psiquiatria e Psicologia Clínica dirigida por Gaetano Benedetti e Píer Francesco Galli, se tornaram um chamado para uma geração de estudiosos e de pessoas em busca de si e de um sentido para vida nas tensões às vezes dramáticas de uma passagem que foi histórica.


Eram os anos fruto de 68, do feminismo, dos movimentos de libertação a nível internacional, de um marxismo que interceptava ainda as exigências de mudança, mas não conseguia sair dos esquemas ideológicos, de um pós-Concílio que acendia as esperanças dos cristãos.


Silvia soube interpretar o momento histórico com escolhas de vida rigorosas. Deixou o refúgio das instituições analíticas para ser mais livre na elaboração do seu pensamento. Focou os esforços para devolver função “social" à psicanálise devolvendo-a à sua tarefa essencial: consciência e transformação interior; a convicção de que somente a partir das mudanças interiores pode florescer uma nova prática humanista e social. Meta de Silvia foi trabalhar para que o homem e a mulher trabalhassem a uma contínua tomada de consciência da realidade e dos condicionamentos, não somente para resolver os próprios problemas pessoais, mas para se tornar indivíduos responsáveis, que, junto aos outros, assumem em suas mãos a mudança das relações inter-subjetivas, a mudança do coletivo e das culturas de referência.


Dela fica a confiança incondicional, de grande atualidade, na dialética dos saberes, no diálogo entre as pessoas, na vida interior enriquecida pelo trabalho com o inconsciente e o sonhos, na auto realização de si mesmos como destino que une homens, gerações e épocas.

Escreve Paolo Cozzaglio: "Silvia Montefoschi tinha horror de uma psicanálise fechada no consultório do analista e relegada ao diálogo personalista com o inconsciente. A psicanálise para ela havia de ser também motor de transformação social, em particular da condição da mulher, desde sempre identificada no papel de portadora da vida biológica e das necessidades materiais (maternidade, família), com o delegar inevitável do trabalho de pesquisa do espírito (filosofia, ciência, religião, política) ao homem. Silvia via, porém, de forma crítica o protesto feminista de 68 que renegava o masculino. Ao contrário, sentia a necessidade de a mulher legitimar a sua “capacidade consciente de pensamento” para entrar em diálogo com o homem. A psicanálise, portanto, sempre foi para Silvia o caminho que abre ao homem e à mulher a estrada para se tornar ambos Sujeitos em diálogo intersubjetivo, tanto no plano do pensamento, como no plano do amor.



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